Um quer se prender. Se perder. Se entregar. Quer se abrir e se deixar levar. Se sente incompleto, confuso, sozinho. Quer amar como nunca amou antes. Ele não vê a hora compartilhar suas alegrias e sandices, mostrar o que há de mais doce no mundo, sem medo da felicidade. É um livro aberto, transparente, a espera de alguém pra lhe ajudar a continuar a escrever sua história. Esse lado deseja e não esconde. Ele grita.

O outro quer ser livre. É completo. É fechado. Silencioso. Quer ser do mundo e não deixa ninguém entrar. Um livro completamente trancado a sete chaves. Observa, não fala, não sente, não demonstra. Não deseja. Não quer desejar. É um lado totalmente cauteloso, amedrontado e ferido.

Ambos são fogo, igualmente intensos. Um aquece, o outro queima – ou apaga.

Um quer conversar sobre o céu, o mar e as estrelas, o outro não fala absolutamente nada.

Um quer se apaixonar perdidamente, o outro tem medo de se perder em meio a paixão que cega, que fere, que mente.

Os dois lados me habitam, coexistem e fazem de mim confusa, mas inteira, de alguma forma. Eles se manifestam em diferentes momentos, depende somente do merecimento de quem me acompanha. Ambos me representam.

Você pode me fazer querer te aquecer, mas um movimento brusco pode me fazer te queimar. Percebe que não depende de mim? Você é o combustível que mantém a chama acesa, basta manuseá-la com muito cuidado.

Mas fique sabendo que, uma vez que a ternura for confundida com ingenuidade ou estupidez, automaticamente se torna fúria e essa labareda cessa. Daí, não há nada que a acenda de novo.