Pessoas que escrevem são extraordinárias, porque vivem em dois mundos diferentes: na realidade silenciada pela boca quase sempre calada, e na mente ensurdecedora, criativa, mística, cheia de histórias para contar, ouvir, amar, sofrer e permitir. Namorar alguém que escreve é pedir autorização para entrar nesse universo paralelo que só eles conhecem bem.

Quando esse amante da escrita se apaixona por você, pronto. Já te criou de várias formas, jeitos, personagens, situações, em longas linhas intensas de textos corridos, jamais compartilhados. Não que ele cria uma versão idealizada de ti, mas por ser extremamente observador, ele é capaz de pegar cada detalhe seu e transforma num romance de 400 páginas, se assim quiser. A essa altura, você já virou musa inspiradora, sem ao menos saber. Quando alguém que escreve, escreve sobre você, tenha consciência de que ele abriu um espaço na mente bagunçada e no coração profundo que é só seu. E isso vale mais do que qualquer demonstração pública de afeto.

Se envolver com alguém que escreve, é estar diante de olhos esbugalhados, observadores, que te imaginam na próxima história que já começou a surgir na mente dele, no segundo em que viu seu sorriso. É sair com uma pessoa que parece fria por não saber demonstrar o que sente, mas que pega fogo no decorrer de cada linha. É ter o prazer de receber cartas feitas à mão. É se ver no olhar do outro, e conseguir se compreender como jamais conseguiu antes.

Quem escreve, não somente escreve. Descreve. Inventa. Mistura. Toda história ouvida, vivida, presenciada, imaginada, acaba se misturando e virando uma coisa só. Se você o amar, vai ter juras de amor em forma de texto. Se você o magoar, vai sentir a dor dele, em cada letra. Porque alguém que escreve é assim, extremamente profundo, intenso e verdadeiro. Vai de você escolher de qual história quer fazer parte.

Texto disponível no Literatura Amarga .