“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”, já dizia Antoine de Saint-Exupéry. Num mundo de aparências, os olhos se abrem ao belo e o coração se fecha ao diferente. Já na magia da essência, não é preciso ver para sentir, apenas se deixar levar por essa beleza invisível e intangível que tanto se fala, mas pouco se deseja.

O belo é sim admirável, mas também é questionável e, contraditoriamente, indiscutível. Óbvio que há um senso estético que dita padrões do que é considerável bonito ou feio, e isso acaba influenciando a opinião alheia, mas até que ponto o exterior pode interferir nos relacionamentos interpessoais? Até que ponto podemos nos levar pela aparência e não pela essência do outro?

Não vou negar que gosto de pessoas bonitas. Gosto, sim, mas eu prefiro aquelas que vão ficando bonitas com o tempo, sabe? Que cada dia que passa ficam mais e mais encantadoras. Elas se tornam tão admiráveis pela personalidade, simpatia, senso de humor, caráter, gentileza e humildade que é gotoso acordar todos os dias e perceber como ela está cada vez mais bela, de uma maneira sutil e mágica. Pessoas lindas por dentro acabam transbordando pelos poros. Os defeitos não fazem a menor diferença, na verdade se tornaram até qualidades agora.

O que muitos se esquecem é que, no dia a dia, não é a aparência que torna o mundo um lugar melhor. Na rotina, na convivência, na hora do aperto, não importa se os olhos são azuis ou não. Não importa se o cara é um modelo Calvin Klein ou se tem uma barriguinha de cerveja. Nessas horas, o que importa mesmo é o que vem de dentro. É a essência que, como um perfume, é invisível e sentida profunda e deliciosamente com os olhos fechados.

O que importa mesmo, no fim das contas, é o sentimento, a reciprocidade, o carinho, o respeito. É tudo aquilo que os olhos não alcançam, que os aparelhos da academia não modelam, que o photoshop não consegue manipular. É tudo aquilo que faz parte do interno de cada um, mas que infelizmente nem todos consideram uma prioridade.

Talvez seja por isso que dizem por aí que o amor é cego, porque ele é sentido com o coração e não com os olhos.

 

Texto original Literatura Amarga