Vamos imaginar que você é um ônibus e eu uma passageira. Eu estava a pé, me recuperando da última volta que dei em um ônibus péssimo e totalmente sem segurança, quando me senti cansada e você passou.

Parou e abriu as portas me convidando a entrar. Eu subi, talvez essa nova viagem fosse melhor do que a anterior.

No início o caminho foi tranquilo, algumas curvas suaves. A viagem estava muito gostosa e divertida, a paisagem linda e o ônibus vazio. 

Então, percebi que você começou a aumentar a velocidade. Acelerou e eu, que sempre tive medo, comecei a gostar da adrenalina. Fiquei de pé para sentir a emoção com mais intensidade.

Eis que, sem aviso prévio, você freou. Assim, bruscamente, como quem sai de um transe e recupera a sanidade mental. Eu, que já estava de braços abertos, sentido o vento bater no meu rosto, cai com a brutalidade da parada. O rosto no chão, mas quem quebrou mesmo foi o coração. Você me tirou da inércia e então me lembrei o porquê tinha decido do ônibus anterior. Esse tipo de veículo tende a frear sem avisar.

E agora você está andando devagar. Com cautela. Quando consigo levantar para descer, você tranca as portas e acelera. Depois para de novo. Sabe, essa viagem está me enjoando um pouco. Esse vai e vem. Essa indecisão. Às vezes você pára em outros pontos para deixar outras passageiras subirem, mas eu não gosto delas.

Se você não sabe qual direção ir, então me deixe descer. Preciso cuidar dos ferimentos e pegar meu caminho de volta pra casa. Preciso cuidar de mim, a pé mesmo. Já devia ter aprendido a lição antes, sabe? É melhor andar sozinha, devagar, do que pegar qualquer carona por comodismo.

Só peço que não fique me segurando aqui dentro, cada freada é outro tombo e não sei mais em quanto pedaços meu coração consegue se dividir. Algumas passageiras conseguem descer, outras são mais espertas e apertam bem os cintos. Nenhuma é como eu.

Eu gosto de você e queria que a viagem voltasse a ser como no início, porque não me sinto mais confortável aqui desse jeito. Não me sinto segura. Eu estava disposta a sentir a aventura e adrenalina, mas agora só sinto a dor da queda. Me deixe ir se é o que você quer, caso contrário, peço que volte par ao ponto inicial para que consigamos refazer nossa rota e recomeçar nossa viagem. Dessa vez sem pressa, com segurança. Só eu e você, esse ônibus desgovernado.