Meu corpo pertence a essa geração. Já minha alma, não. Minha alma é antiga. Como se eu tivesse nascido em outra época, vivido amores proibidos – não que isso faça de mim uma romântica insaciável, mas apenas uma jovem com coração cheio demais. Sabe, não sou expert em amar. Não mesmo. Posso te garantir isso. Aliás, sou um desastre, mas com o tempo percebi que a culpa desses amores estabanados que não deram certo não é totalmente minha. Vi que meu amor à moda antiga não é compatível com o ciberlove dessa geração conectada e vazia.

Gosto de cartas escritas à mão, gosto de dança na chuva, piquenique. Acredito na simplicidade dos gestos. Prefiro receber uma margarida colhida no caminho de casa, porque fui lembrada, a receber um buquê enorme de rosas por obrigação numa data festiva. Percebe? O amor está nos detalhes. 

Mas o ciberlove não. É espalhafatoso. Gritante. Tem a necessidade de mostrar pra todos a intensidade e grandiosidade – mesmo que nem seja tudo isso. A internet tem disso: aumentar e transformar tudo que vivemos para o melhor. Falsificar nossa felicidade pra nos dar o gosto de vitória sobre o outro enquanto vivemos uma vida real miserável, sozinha e infeliz.

Só que ninguém precisa saber, não é? Essa é a função do ciberlove. Esconder a verdade e “editá-la”. Enquanto o meu amor se contenta com pequenos bilhetes que me fazem sorrir, esse outro amor 2.0 da geração conectada precisa expor pro mundo o quanto é maravilhoso. Poemas copiados do Google e colados nas timelines com fotos de momentos que não foram aproveitados. Todos precisam saber quão felizes os casais são, mesmo que todos saibam também que eles brigaram semana passada, afinal ambos mudaram o status de relacionamento do Facebook quatro vezes. True love.

Por trás desse suposto amor, há todo um jogo. Antes os romances eram proibidos. Hoje, nós os proibimos, bloqueando nossos instintos e sentimentos – porque nessa nova teoria do ciberlove, quem sente é fraco. Quem mandar mensagem primeiro é fraco, quem responder na hora é desesperado, mas quem visualizar e não responder está ganhando o tal “jogo”.

Hoje uma curtida diz mais do que mil palavras, tem inúmeros significados e é assim que as pessoas demonstram interesse. Curtindo uma foto. Duas, três – e se for mais de quatro e de datas antigas, aí você realmente está interessado, amigo! 

Essas ações vazias dão espaço para interpretações convenientes. Cada um enxerga o que lhe é apropriado no momento, acredita no que quer acreditar, tira as próprias conclusões – e ilusões.

Ah, as ilusões são maiores.

Criamos mais coisas em nossas cabeças, porque essas ações alimentam nossa solidão e dão à ela uma linha de esperança. Nós nos apaixonamos por personagens criados pela “magia” do mundo maravilhoso e feliz da internet. Aliás, a palavra paixão assusta qualquer um no universo do ciberlove. Cuidado. O antivírus começa a apitar e você já já está fora.

Que jogo malvado é esse, alguém me explica? Não me lembro de ter aceitado fazer parte disso! Vai ver está escrito nos termos de uso do Facebook – que aliás nenhum de nós nunca leu.

Eu não quero fazer parte deste jogo. Não quero esse ciberlove, dessa geração vazia que não sabe o que é amar. Quero o amor que está nas pequenas coisas. O amor que é preocupação, atenção diária, carinho, sinceridade. Aquele que se interessa pelo que a outra pessoa gosta, que está disposto a ouvir, a ajudar, mas que sabe a hora de falar quando necessário.

O amor que ri, que ama no ato. Amor é ação. Agir. Amar de verdade. Não é falar “eu te amo” pelo whatsapp e depois de uma discussão boba simplesmente desaparecer. O ciberlove desiste fácil, é frágil, porque não é verdadeiro. E eu não me satisfaço com pessoas fracas. Quero o amor verdadeiro. Aquele que permanece, no matter what.

Amar é compartilhar sim, mas não nas redes sociais – é compartilhar a dois. Afinal, não adianta gritar pro mundo o que não é capaz de sussurrar no meu ouvido.